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Especial Cinema Gaúcho

Por Rafael Gloria

 22/08/2011

Simone e a busca pela liberdade de escolha

O Blog do Iecine dá continuidade a  série de postagens com produtores e cineastas gaúchos. Conversamos com o diretor Juan Raúl Zapata, que atualmente está finalizando o seu primeiro longa de ficção, “Simone”.

Como nasceu o projeto Simone?

Simone nasceu há seis anos durante um trabalho que estava dirigindo para a RBS. A Simone Telecchi fazia uma ponta. É muito curioso porque no dia que ela esteve no SET, eu percebi uma ambiguidade, algo muito curioso. Tinha um masculino e um feminino muito forte nela e pelo menos para mim, que sou muito observador, era algo muito gritante. Então começamos a conversar e ela me contou a sua história – nos tornamos bons amigos. Era uma mulher que sempre se relacionou com mulheres e que assumiu a sua homossexualidade muito nova. E por aquela época curiosamente, ela estava começando a ter alguns problemas pessoais e estava disposta a tentar a heterossexualidade. Logo de cara percebi que tinha uma história que merecia ser contada. A gente conversou muito, e, a partir disso, comecei a construir o roteiro. A gente começou a filmar na época, seis anos atrás, estava muito mais com o conceito documentário. Então ela ficou grávida e paramos tudo. Seguimos trabalhando em outros projetos, etc.

No fim, foi ótimo, porque durante esses anos a história mudou, amadureceu e aconteceram muitas coisas. Para mim era importante que fosse a mesma atriz, a Simone acho que era um diferencial do projeto até por isto eu fui teimoso e ansioso em filmar sem grana ainda, porque estava quase em ponto de perder a Simone como personagem. A sua vida mudou muito ao longo desses anos. É uma mulher que é mais mãe, que é mais mulher e que assumiu mais a sua postura feminina. Acho que se não fosse agora, não iria acontecer nunca.

E..é o teu primeiro longa de ficção. Como é essa diferença para ti entre fazer documentários e ficção?

Acho que a maior diferença é na produção. O custo é grande na ficção. No caso de Simone eu conseguia trabalhar com elementos de documentário também, então me sentia bem à vontade, usava técnicas de documentário tranquilamente. Para mim, Simone tem uma surpresa, principalmente no conceito que eu tenho de direção de atores, dependendo do ator, prefiro deixa-lo mais livre;  não só introduzir uma série de discursos para que ele recite. Eu acho que isso não faz sentido. Então no caso da Simone, eu sabia que podia jogar elementos, informações que ela tinha me passado, várias das cenas aconteceram em lugares reais, que ela viveu. Ou objetos que estavam em situações que eu sabia que aconteceram com a Simone. Porque a conectava com o personagem, era a Simone fazendo o papel de Simone, mas também conectava com essa persona que ela não era mais (ou que estava deixando de ser) o que acabou se tornando um troço esquisito e maravilhoso.

Quanto tempo foi de filmagem?

Doze dias trabalhando quase 16 horas por dia. Foi um suicídio coletivo, eu ainda não me recuperei, as minhas olheiras são basicamente  disso. A gente tinha um financiador que no último momento caiu fora, então a gente ficou sem 70% do dinheiro, daí decidi fazer com o que tínhamos mesmo. Diminuímos das três semanas planejadas para doze dias. Acho que foi uma correria danada, muito desgastante, mas também integrou muito a equipe.


O que falta finalizar?

Nós estamos começando a montagem do filme. O material está muito bom, mas precisa de um bom montador, que tenha uma sensibilidade muito forte. E eu abri mão de usar bitolas, a história inicialmente acontecia entre bitolas, agora essas bitolas serão trazidas na finalização. O filme acontece em três tempos: passado, presente e futuro. Quero cada um deles tenha uma linha rítmica de montagem diferente e com uma textura de imagens diferentes também.  O áudio precisa de um pouco de tratamento, teremos que dublar algumas cenas.

E como está a expectativa?

A expectativa é forte também quanto a distribuição. Desde o início de Simone estamos fazendo todo um projeto paralelo de divulgação e comunicação, que são os blogs, as redes sociais, o diário de produção. Então tudo isso faz parte do projeto de distribuição e contribuem para esse processo. O filme será distribuído em oito países, e o lançamento será simultâneo em dvd, internet, tv e cinemas. Estamos querendo ser mais ambiciosos.

Vocês utilizam muito a internet para chamar gente para a produção e para divulgar os filmes. Como você observa a questão da rede para o cinema, é uma tendência?

Passei muito tempo visitando outros países, vendo tendências na área do cinema e muito do conceito de Simone está baseado na nova tendência de distribuição do mercado internacional. Então estou aplicando tudo que aprendi nesses anos e resgatando algumas ideias que tenho de como deve ser o processo, porque além da minha paixão pelo cinema, eu também o vejo como um produto. Tem que saber vender e tem que saber consumir. Quero que Simone seja um diferencial principalmente na distribuição, a ideia é realmente marcar com isso, tentar fazer um produto que seja interessante para o mercado internacional, e não apenas no mercado brasileiro. Priorizar globalmente.

Quais, tu diria, que foram as maiores dificuldades na hora de produzir Simone?

Recursos, totalmente. Imagina tinha uma semana para a gente começar a filmar e caiu 70% do recurso, então isso mexeu bastante com nós, e, claro, teve as suas consequencias, mas não impediu que a gente tenha filmado. Assumimos nosso risco, gerou um boca boca muito bom. Os profissionais que estamos trabalhando são de primeira linha aqui de porto alegre e do estado, então gerou um bom material.

 O enredo do filme é bem diferente, uma mulher homossexual que decide ter experiências heterossexuais. Vocês já sofreram algum preconceito?

Tivemos algumas restrições e alguns posicionamentos no processo de capacitação de recursos que demonstravam que algumas pessoas não queriam apostar em um filme sobre isso. Mas também está sendo positivo para outras coisas, é um filme que vai dar no que falar. Nós tivemos a sensibilidade de não fazer um filme tão sexual, pois escolhemos falar sobre liberdade e sobre escolhas. Não fala sobre ser heterossexual ou homossexual, fala sobre liberdade, sobre ir atrás de sua felicidade. Sem se importar com nada. A ideia é falar sobre a escolha das personagens, de ela se assumir, independente do que seja.

O que mais se posicionaram contra foram algumas ONGS que trabalham com homossexualidade, várias entidades disseram que eu estava fazendo um filme que falava que pode deixar de ser um homossexual. Eles não entenderam, mas eu compreendo isso, eles estão batalhando a causa deles. Por outro lado, também temos recebido muito apoio de pessoas que estão entrando em nossas redes sociais e colocando comentários positivos sobre o filme, inclusive outras ONGS referentes a homossexualidade.

Já tem uma previsão para o lançamento do filme?

Ele tem que estar finalizado em março e vamos inscrevê-lo em festivais internacionais a partir de dezembro. A gente já tem um roteiro preparado para isso e contamos com profissionais para ajudar nessa empreitada também. Então o filme, o primeiro corte vai estar pronto em outubro, ou novembro, porque não adianta deixar ele guardado. Depois disso é vida ou morte.

Para saber mais acesse o site http://zapatafilmes.com.br/

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Espia Só resgata a história do maestro Otávio Dutra

Por Rafael Gloria

O Blog do Iecine começa uma série de postagens com produtores e cineastas que estão com seus filmes em fase de finalização. Conversamos com o Carlos Peralta da Guarujá Produções, produtor do filme “Espia Só”, que conta a história do maestro Otávio Dutra – um dos precursores do gênero chorinho e que viveu em Porto Alegre no início do século XX.

Como surgiu a ideia do projeto Espia Só?

O projeto “Espia Só” surgiu após o término da filmagem de  “Tango uma Paixão”, nosso trabalho anterior. Lá entrevistamos o maestro Verdana, já falecido. Ele havia escrito um livro com o apoio da Petrobrás sobre a vida do músico Otávio Dutra, e passou algumas cópias para mim e para o diretor, o Saturnino Rocha. Nós avaliamos e chamamos o Arthur de Faria para fazer um balizamento para nós de quem era o Otávio Dutra. Acontece que era uma história muito interessante: o maestro Otávio Dutra criou mais de 500 músicas, rivalizava com o Pixinguinha, formou uma geração de músicos no Rio Grande do Sul e morreu pobre e esquecido. Na miséria. O que mais nos mobilizou então foi também esse resgate cultural e musical de toda uma época de Porto Alegre (Otávio Dutra teve seu auge musical de 1910 a 1927).

Foi difícil achar material sobre a a vida do maestro e sobre a época em que ele viveu?

Ele teve duas filhas, uma morreu com dois anos de febre espanhola em 1917 e a outra morreu em 1961 em São Paulo e não deixou herdeiros. Talvez esse seja um dos motivos do esquecimento do Otávio Dutra. Ele teve muitas sobrinhas, sobrinhas netas e tudo mais e foi a partir delas que nós conseguimos boa parte dos registros e também com o maestro Verdana. Caiu nas nossas mãos, quase todo o acervo do maestro Otávio Dutra. Sujo e praticamente impossível de acessar, mas, com a chegada dele, mudou toda a história: nós tínhamos material não para fazer apenas um média, mas sim um longa. O Arthur começou a descobrir peças teatrais inteiras, músicas ou partituras originais, depoimentos, entrevistas dele, músicos que foram lançadas. Era muito material.  Então acabamos optando por fazer o resgate cultural de uma época, principalmente, musical, reconstituímos uma pequena mostra da obra dele – cerca de 15 músicas.

Quais eram as características da obra do maestro Otávio Dutra?

Ele era carnavalesco e foi um dos primeiros a criar os jingles no Rio Grande do Sul. Formou uma geração de músicos, os mais conhecidos eram o Dante Santoro – que era um flautista – que acabou sendo maestro na rádio nacional do Rio De Janeiro. Otávio Dutra também criou um conjunto, que talvez seja o conjunto mais famoso do rio Grande  do Sul, o Terror Dos Facões, que fez concorrência com a banda do Pixinguinha da época. Ele é praticamente o criador do chorinho no Estado. Interessante que ele mostra essa outra faceta, esse outro lado cultural do Rio Grande do Sul: a música urbana. A partir do violão, o bandolim, o cavaquinho, o berimbau, o samba, e o carnaval, enfim, uma outra faceta do Estado é apresentada.

O que falta finalizar?

A edição de som e arte final do filme, e depois ele entra na fase de distribuição.

Quantos tempo de produção?

Ele começou a ser produzido em 2009. Dois anos e meio então e será lançado em 2012, então são três anos. É mais provável que a gente lance o filme em março de 2012, né. Não vai passar disso, daí  depende da estratégia que eu e o distribuidor vamos traçar para lançar o filme.

Como foi a recepção do filme até agora?

Muito boa,  quem viu gostou muito da qualidade do filme e isso me deixa satisfeito, justamente pelo caminho que a gente tomou. Tivemos todo cuidado em fazer o filme. Ele tem inovações, afinal, é um documentário musical que tem direção de arte, algo que não é muito comum. A gente procurou também ver uma maneira de colocar microfones de alta qualidade que fez com que a qualidade da capacitação do som aumentasse – o que vai surpreender para quem tá vendo e ouvindo. O som é um dos itens mais atraentes do filme.

Uma resposta

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